Nota de contexto: este artigo de opinião foi publicado em 1º de setembro de 2017. As referências aos casos noticiados foram mantidas como registro daquele momento; os canais de apoio ao final do texto foram atualizados em agosto de 2026.
Preparando o artigo da coluna desta semana sobre a nossa última viagem, deparei-me na internet com uma viagem rotineira, de volta para casa, que deveria ter sido tranquila, mas que acabou em tragédia. O caso da escritora Clara Averbuck, que relatou ter sido estuprada dentro de um carro solicitado pela Uber em São Paulo, merece, no mínimo, o espaço desta semana. Não porque ela seja vítima, mas porque o caso reflete, mais uma vez, uma das facetas doentias da nossa cultura no Brasil.
Nada justifica a violência sexual
Gostaria que todos os homens no mundo — e, em especial, neste país — entendessem de uma vez por todas que não há situação alguma que justifique um abuso sexual. Bebida, roupa ou atitude: nada. Isso pelo simples fato de que se trata de outro ser humano e de que relações sexuais só devem ser consensuais. Simples assim. Pode ser? Ou ainda está difícil de entender?
O relato de que o motorista decidiu se aproveitar de uma passageira embriagada revela um pensamento característico de uma mentalidade ainda presente em nossa sociedade: o homem que se sente no direito de se aproveitar de uma situação de vulnerabilidade da mulher, afinal “ela que não se protegeu”. Ele se sente no direito de acessar o corpo dela porque “ela que não se cuidou”, “ela que não vigiou”, “ela que não se deu o respeito”. Que sociedade é essa em que as mulheres devem viver se protegendo dos homens? Só viver não basta?
A culpabilização da vítima começa cedo
Essa é, infelizmente, uma marca da sociedade brasileira. Uma sociedade em que pais e mães criam suas filhas para se comportar direito, mas nem sempre criam seus filhos para respeitar limites. É o velho ditado que adultos repetem, rindo, para os pais da amiguinha do filho na escola: “Prendam suas cabritas, que meu bode está solto”.
Esse tipo de criação ajuda a normalizar homens que não compreendem que o corpo da mulher não é uma extensão do seu próprio corpo; que não têm o direito de acessá-lo quando ela está vulnerável ou simplesmente vivendo com liberdade.
Impunidade e repetição da violência
O caso também expôs a percepção de impunidade em torno da violência sexual. Na mesma semana, outras denúncias ganharam repercussão nacional, incluindo episódios em transporte público em São Paulo e no Rio de Janeiro. A sequência de relatos reforçava uma pergunta que continua necessária: quantos casos ainda precisam ocorrer para que a violência contra as mulheres seja tratada com a seriedade exigida?
O foco deste texto não é atribuir a uma plataforma a responsabilidade individual por um crime, mas discutir uma cultura que culpabiliza mulheres e relativiza a violência. Aplicativos de transporte mudaram desde 2017 e hoje oferecem recursos como compartilhamento de trajeto, verificação de dados e ferramentas de emergência. Nenhum recurso, porém, substitui o respeito, a responsabilização e políticas públicas eficazes.
Canais de apoio e segurança
- O Ligue 180 orienta sobre direitos e serviços, registra denúncias e funciona 24 horas, gratuitamente.
- Em uma emergência, acione a Polícia Militar pelo 190.
- Antes de uma corrida, confira placa, modelo e identificação do motorista; durante o trajeto, use os recursos de compartilhamento e segurança disponíveis no aplicativo.
As ferramentas atuais da plataforma podem ser consultadas na página de segurança da Uber.
